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| Out of Mind - Tove Lo |
Pegou tudo que tinha. Toda a raiva comprimida por anos, tudo aquilo que estava entalado na garganta. Tudo aquilo que o sufocava, não suportava mais carregar aquela energia negativa que circulava em teu corpo: o remorso, o arrependimento. Juntou tudo e libertou em um grito, como uma linda explosão de raiva e ódio. Berrou, soltando tudo aquilo que o consumia, que o manteve comprimido, retraído por tantos anos.
Mas, por um pequenino e importante equívoco, esqueceu que estava gritando aquilo tudo contra o espelho. Toda a repulsa, todo o sentimento externo acumulado por tanto tempo ficou em si, o possuiu. Toda a energia que foi liberta voltou para si; mas não internamente: ficou disperso pelo ar. E ele ficou lá, naquela sala vazia. Sentado no chão, olhando para toda a poeira densa e escura que flutuava no ar. Seus demônios internos, seus mais terríveis medos, tudo o que havia escondido estava lá, bem na sua frente.
Era possível ver em cada ruga sua surpresa, cada traço de sua face expressava sua indignação boquiaberta com o que tinha feito consigo mesmo. Ficou impressionado com sua capacidade de guardar tanta coisa que fazia tão mal. Como era possível? Um ser que ora era tão puro cultivar pensamentos tão destrutivos? Guardar tamanhas mágoas, ser tomado pela opulência, achando que a avareza preencheria o vazio de seu ser? Toda a dor poderia ser evitada com pequenas doses de sinceridade, de segurança, de sentimento verdadeiro. Pobre ludibriado, arrependido de suas escolhas ruins. Mas não há mais tempo para arrependimento e auto-sabotagem.
Enquanto depara com aquele inferno particular, ainda sentado no chão, não conteve a amargura em seu peito e choveu. Choveu como nunca havia chovido antes, como a saída do ventre, cego pela luz do mundo. Seu peito fervia, uma sensação inexplicável, como um grito de renúncia. Decidiu se livrar de tudo que aquilo que o mantinha na escuridão, prometendo a si mesmo nunca se permitir chegar àquele estado. Não tinha mais medo de florescer, de ser, ignorando julgamentos. Era o início da primavera. O renascimento, um novo começo.
texto: recomeço
Reviewed by Luccas Emanuel
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fevereiro 23, 2018
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