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| Foto: Luccas Emanuel |
Alguns dias é especialmente mais difícil ser si mesmo.
— Eu adoro isso, sabe?
— O que?
— O som da garoa, caindo no chão, o clima úmido e o cheiro de terra. As cores frias na janela, a temperatura mais baixa, convidando estar sob o cobertor. A preguicinha boa, que serve quase como um entorpecente, sonífero natural. É bom estar contigo, deitado em teu peito. Eu não quero ir embora.
Nosso inconsciente guarda coisas horríveis sobre nós, tão fortes que é capaz de não suportarmos.
Lembra quando acabava a luz em casa? A gente ascendia diversas velas, ficava nervoso sem saber o que fazer, conversava muito e quando eu tinha fome mamãe fazia miojo com aqueles salgados empanados. Eu nem como mais aquilo.
Talvez eu nunca vá superar você.
Meus pensamentos às vezes me matam por dentro. Sei que devo me afastar de algumas situações, mas o medo me corrói e me pego em paralisia, estagnado. Nem tenho controle dessas coisas, e isso me assusta porque não sei quando ou se vou encontrá-las de novo.
Eu nem sei quem eu sou agora.
Me encontro perdido no espaço-tempo, com saudades de tempos antigos que não consigo mais vincular a mim mesmo. Um indivíduo sem passado, desconfortável com o presente e com dúvidas em relação ao futuro. Talvez eu seja só mais um me sentindo assim, ao menos sei que isso evapora.
Todo esse jogo é deveras cansativo, eu não vou correr atrás de quem não tá afim.
"A gente ia para o parquinho da rua debaixo de casa, foi lá que você aprendeu a andar de bicicleta, você não lembra? Tinha um rio por perto, e atravessando a ponte dava pra chegar naquela ladeira que dava na casa do tio e na padaria"
"Promete para mim que não vai ter nenhum pensamento derrotista?"
Às vezes eu tenho saudades das nossas conversas bêbadas depois da aula, na estação. Você nunca foi de se abrir, mas já contou coisas sobre si que eu guardei com carinho (outras o álcool me fez esquecer).
"Lembra de passar na gráfica e imprimir o trabalho, é pra amanhã."
Tantos textos que escrevi pra ti, tantas músicas que cantei. Agora às vezes você parece me querer perto e às vezes parece nem ligar. Era um tempo bom. Às vezes eu sinto saudades, mas é igual o uso de qualquer droga: enquanto dura é muito legal, mas será que vale a pena insistir numa ilusão? Quando você não sabe se/que é ilusão, isso significa que —mesmo por uma fração de segundo— foi real?
Tudo se transforma com o tempo. "A gente nunca tem certeza de nada, mesmo."
Pelo menos isso é o que eu gosto de acreditar. Você nunca foi daqueles de se entregar, sempre buscou ter bastante controle das coisas. Um pouquinho já estava bom.
"Corre, a pirua da escola já chegou!"
Eu ia dormir só de madrugada todos os dias, ficava brincando de jogos de tabuleiro com meus tios e primos, caía no sono com a tevê ligada. Assistia os desenhos antes de ir pra escola e ficava lá a tarde inteira. Hoje só consigo dormir no silêncio. Trabalho de dia e estudo à noite.
Não lembro direito o que aconteceu comigo antes dos 10 anos. O que houve antes dos 14 eu finjo esquecer.
É engraçado pensar sobre amizades bem antigas. Carregamos pouca gente com o tempo, e isso é normal, as pessoas mudam e às vezes simplesmente deixa de fazer sentido. Tantos "melhores amigos pra sempre" que não se falam faz anos, ou gente que costumava ser queridíssima que mal se reconhece quando se encontra esporadicamente por aí no centro da cidade.
Agora meu passado e meu presente (que se torna um passado contínuo) se encontram de novo. Eu só quero ter uma vida boa.
No momento eu me entrego à deus e a qualquer amigo imaginário. Continuo meus monólogos disfarçados de conversas, deitado na grama sozinho. Posso encontrar o conforto pra profunda solidão me apegando à música, poesia, gente que é importante pra mim agora e tudo que dá sentido a minha existência. Ainda tenho a crença de transformar dor em algo bom e de que vai valer a pena no final.
Quase tudo tem prazo de validade. O importante não é o destino, mas sim o que você faz durante a viagem.
texto: flashes / nostalgia
Reviewed by Luccas Emanuel
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abril 02, 2018
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