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| Foto: Aaron Burden |
São Paulo, 04 de julho de 2018.
A última vez que eu tinha escrito sobre ti está datada em abril, e sabe... É até estranho voltar a esse lugar, tanta coisa mudou que nem me encontro mais aqui.
Eu sempre tive dificuldade pra definir o início e o término das coisas. Como que a gente separa o passado do presente e constrói o futuro se um tem influência direta no outro? A gente não tem muito controle do que pode acontecer, mas pode escolher e viver nossos caminhos. O que será que é o amor? Será que é a forma que eu peguei seu sotaque emprestado? Ou o calor no peito que conforta minha alma toda vez que te abraço? Se amar é sinônimo de não esperar nada em troca, por que reciprocidade faz tão bem?
Hoje eu vejo com clareza, tenho certeza que te amei. Eu me entreguei, escrevi músicas e vivi intensamente esse sentimento singular e unilateral que brotava em mim e transformava cada dor em algo bonito... E é por isso que essa mensagem é uma despedida. Eu me apaixonei pela ideia de você. Eu me apaixonei por quem eu queria que você fosse pra mim, porque me fazia bem. Eu queria e quero ver sua felicidade; e não vou mentir que, as vezes, seus traços e suas expressões (aquelas linhas alegres e sinceras no canto da boca) ainda causam carnaval em meus sentidos.
Venho dessa forma me despedir de tudo isso. Eu preciso. Eu sempre transformei tudo o que eu sinto em arte; e é através da arte que ponho um ponto final nessa história, que termino o que nunca começou. Essa pessoa que me apaixonei só existia em minha mente, em meus textos. Eu te recriei em minhas idealizações, como um holograma transparente, que eu pudesse olhar, admirar, rotacionar e modificar à minha vontade; mas nunca tátil, nunca real.
E assim funciona a criação. E curiosamente, é com essa mesma facilidade que eu escolho te matar. Alguns dizem que o amor interpola com o ódio, ou que os dois fazem parte do mesmo sentimento. Só precisa um tiro, apenas um tiro, e tudo se acaba. Como um simples roteirista, que mata personagens sem dó. As vezes, sem razão, brinca com a vida como se não gerasse consequências, e acaba ficando por isso mesmo. Os outros personagens vão acostumando, a vida segue. Por que matar algo que costumava fazer bem? Pra não se apegar às memórias que não ocorreram e viver o real, talvez. Eu preciso do real. Mas calma, eu não sou nenhum assassino, é metafórico.
Essa é a última mensagem que escrevo pra ti. Eu preciso oficializar isso, precisa ser desse jeito. Depois disso, talvez eu mostre, fale ou até cante coisas que eu já fiz sobre/para ti antes e nunca mostrei, mas não vamos mais entrar em contato novamente. Vai ser melhor assim. Me despeço de ti com uma carta cujo remetente e destinatário são a mesma pessoa.
Eu sei que eu te amei, tanto o você real quanto o que idealizei. Mas o você de verdade gosta do colega de trabalho que não te dá bola, e continua com os mesmos hábitos. Eu estou em mudança contínua com o tempo, e não tô afim de ser refém disso, ser o estepe. O você holográfico, bem... Ele se encaixava perfeitamente no que eu queria, mas ele não existe e também não era isso que eu precisava.
Você (o real) fez muitas coisas bonitas e bacanas pra mim e eu sou muito grato por isso, me ajudou a enxergar a luz e tirar a motivação que tinha dentro de mim e eu não era capaz de acessar. De alguma forma desde o começo eu sabia e sentia que a gente não ia dar certo, mas por algum motivo nossos caminhos deveriam se cruzar. Talvez pra eu ter vivido tudo isso e coletar esse aprendizado, me apegar e devagar a grande metáfora simples que é o amar. Talvez eu precisasse ter passado pela tempestade para finalmente florescer depois.
Alguns chamam isso de karma, de lei da ação e reação, alguns não chamam de nada. Vou chamar isso de uma experiência, uma memória que guardo com certo carinho e que termina de se cicatrizar; como um capítulo que se finaliza. Eu te amei, a ponto de pensar em me colocar a segundo plano pra continuar a te amar, manter o desejo impossível sem esperar nada em troca. Eu te amei, mas com tempo eu tenho percebido que eu escolhi me amar mais.
Obrigado pelas memórias,
Luccas Emanuel.
Luccas Emanuel.
texto: última carta
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julho 05, 2018
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