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| Foto: JESHOOTS.COM |
A gente sempre tomou muito cuidado com cada detalhe quando envolvia o outro. Às vezes era algo simples e até passava despercebido, mas era necessário para compor o clima que a situação precisava. A cama desarrumada, nossos sapatos iguais, e braços entrelaçados de forma que eu não sabia mais diferenciar o que era você e o que era eu.
Sete meses, cara. Sete meses que tu entrou na minha vida, no momento certo e da forma mais inesperada, e fez o maior rebuliço que eu jamais poderia imaginar que precisaria tanto, que me faria tão bem. Sentimos algo que nem sabíamos que era possível, que era real.
O passado atormentava. Atormentava porque a reciprocidade era estranha, não sabíamos que se permitir poderia ser positivo. E com o passar do tempo, levemente o fantasma do passado se tornou cada vez mais presente. O medo de perder se tornou mais forte do que o de viver o que tinha. O medo de se machucar se tornou maior do que a coragem de se permitir sentir algo de fato, e é engraçado a forma que o medo de que algo acontecer foi justamente o motivo de ter acontecido, de forma inevitável.
As fotos que eu te dei foram impressas em off-set fosco. Vai se desgastar com o tempo, se amassar, molhar, assim como as memórias. Se desgastam, precisam ser criadas novamente. Amor frágil, sensível. E vai chegar um dia que você nem vai mais se lembrar de mim, vai se fazer parte de um passado distante (ou que você quer que seja). E eu não quero ser dramático ao dizer isso, é apenas a forma que as coisas acontecem.
O verniz sobre a foto impressa que você me deu impede que ela se danifique com as lágrimas salgadas que caem sobre ela, você fez questão de ficar marcado, de não sumir com o tempo. Você nem precisava ter se preocupado com isso, porque eu vou carregar você em meu peito. Pelo menos um pouquinho de você, um pouco do que você foi. Assim como guardo um pouco de todos os outros que passaram antes de ti. Dizem que o ruim de se envolver com artista é isso, a gente é sentimental, a gente escreve e aquilo fica guardado pra sempre como a memória de algo que aconteceu apenas por um tempo. Assim como as fotos, registram algo que pelo menos em um momento, foi real. As vezes eu precisava ter passado por isso, pra escrever as músicas que escrevi, pra escrever esse texto. Pode ser que algo me espera mais à frente, talvez tenha um motivo pra isso.
É bom saber que você superou, que está bem. É bom saber que já ta em outra, que tá com outro. Até porque tudo o que eu quis esse tempo todo é que você fosse feliz. Eu sou grato à tudo que a gente passou junto, aos filmes que assistimos e os cafés com sorvete que tomamos. Sou grato pelas músicas que choramos ao ouvir juntos e os momentos que colecionando. Aos lugares que você me apresentou, aos almoços que tivemos juntos. Sou grato pela lista de filmes que nunca conseguimos assistir e até pelos planos que não aconteceram. Pela minha formatura que você não foi e pela casa que a gente nunca morou. Foi bom criar esses momentos, essas verdades que existiram pelo menos em nossa mente, enquanto vivíamos aquilo.
Foi um sentimento inocente, situações extremamente novas para ambos, é inútil pensar em um culpado. É engraçado achar que por já ter se relacionado antes nós teríamos alguma experiência e que seria fácil. Cada pessoa se torna uma nova experiência, construímos sempre uma nova coletânea de aprendizados. Embora eu sinta a dor corroer meu peito e minha garganta seca se contorcer, foi bom ter passado por isso. Foi muito bom conhecer teu universo e deixar você viajar um pouco no meu. Tudo tem o seu fim, e ele não justifica e/ou sequer cancela os meios, ele só marca a passagem de um ciclo para outro.
texto: sete meses, sete parágrafos
Reviewed by Luccas Emanuel
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novembro 05, 2018
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novembro 05, 2018
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