texto: Para Sempre

Foto: Jakub Kapusnak

— Fica mais um pouco, vai!
— Tá, só mais um café e eu vou embora.
— Pra sempre?
— Pra sempre.
— Você sempre diz isso...
— Mas dessa vez é verdade.

     Ela sempre parece fria, mas tem um coração escaldante que era bem insistente em criar armadilhas para alcançá-lo (ou pelo menos era muito boa fingindo que elas existiam). Certa ela.

     Em meio a um clima aconchegante, momentos vermelhos e conversas clichês, estava me deparando com mais uma despedida. Desde pequeno sempre troquei "tchau" e "adeus" por "até breve" ou "até mais". Por mais que tudo sempre seja incerto, passava mais segurança. É assustador demais a sensação de perder alguém, mesmo que momentaneamente. Nunca foi fácil, mas estou aprendendo a lidar melhor com isso. Até ficou gostoso, cria uma certa saudade e expectativa. Como será que ela vai estar amanhã? O que a gente vai fazer, qual roupa vai vestir? Vamos sair pra tomar um sorvete ou ficar em casa vendo Netflix?

     As centenas de despedidas e os "desliga você" que nunca acabavam ficaram tão repetitivos que nem eu aguentava mais. Só que dessa vez ia ser diferente, dessa vez ia pra longe. Pra longe dos meus braços, longe do meu sossego. Ela foi transferida por um mês para outro país, pra fazer uma pesquisa e ampliar relações da empresa que trabalha, essas chatices de adulto. Decidimos que íamos lidar como se fosse o fim de mais um dia normal, onde ela precisava ir trabalhar e eu precisava voltar pra casa e arrumar minhas coisas, sempre uma bagunça.

     No começo foi bem fácil, chamadas em vídeo todos os dias, conversas animadas e as típicas fotos de turista, sempre tiradas do mesmo ângulo. É óbvio que a única coisa que eu conseguia enxergar era a felicidade expressada nas tortas linhas de seu rosto, e a única coisa que conseguia sentir era gratidão por poder conhecer alguém assim, que me proporcionava tantas coisas boas, e mesmo tão longe me fazia sentir tão perto.

     O amor possui várias fases, várias faces. Estávamos como uma paleta de cores em tom pastel que todo mundo adora usar, com um gostinho de pijama velho e cabelo bagunçado; e isso nunca importava, desde que coubesse num abraço que não acabaria nunca.

     Contava os dias para ver teu rosto e sentir teu cheiro de novo, já que as horas eu gastava sonhando acordado com tanta coisa que a gente ia viver ainda. Os dias foram ficando mais corridos e as mensagens iam diminuindo, mas eu continuava deitado esperando saber como foi o dia e o que tinha descoberto. É um clichê da abnegação, mas a felicidade dela me completava, e só de enxergar o quão longe tinha chegado em seus objetivos, meus olhos enchiam-se de lágrimas.

     Aquele longo mês estava prestes a acabar, mas seu fim trouxe uma notícia infame: mais dois meses em outro país, já que os dados coletados eram insuficientes. Eu sabia que a decepção dela era tão grande quanto a minha, e tentava consolar seus dias corridos com nossas conversas noturnas, que acabavam se tornando cada vez menores diante a tanto trabalho e cansaço que ela tinha.

     Os caras do Charlie Brown Jr. costumavam dizer que "ela vai voltar". Será que volta mesmo? Esse tempo tá durando uma eternidade... E como ela vai voltar? Volta de onde, e pra onde? Não sei se acredito nisso. Mesmo se voltasse, não seria a mesma pessoa. Voltaria com olhar fascinante, cabeça cheia de ideias. Talvez estaria cansada de mim, que já tinha me tornado tão cinza por estar jogado no sofá de um apê escuro em meio a pacotes de salgadinhos. Ou talvez voltaria sorridente, com saudades e querendo vivenciar tudo de novo, só que comigo.

     Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontra as mesmas águas, e o próprio ser já se modificou. [...] Portanto, o real é sempre fruto da mudança, ou seja, o combate entre os contrários. - Heráclito.

     Haviam se passado meses e eu ainda estava jogado no sofá, segurando o celular esperando qualquer notificação, mesmo já fazendo semanas sem um sinal de vida. Para mim, ela esmaeceu como uma foto antiga que desbota lentamente a cada cópia que se faz dela, e em minha cabeça eu copiei quem éramos centenas de milhares de vezes, sempre a mesma foto, sem considerar a possibilidade de mudança. O que eu sentia e quem ela era, só existiam para mim. Fazia muito tempo que ela já não era a mesma. Eu a condenei à uma confortável estagnação comigo e me apaixonei por uma idealização. Sua viagem para longe de mim condicionou a proximidade com seu íntimo, ela precisava se mergulhar em si e florescer, ser o real que eu me recusava a enxergar.

Nossa última conversa terminou em um café, com promessas de para sempre.
O para sempre sempre se vai,
E se foi.
texto: Para Sempre texto: Para Sempre Reviewed by Luccas Emanuel on setembro 16, 2017 Rating: 5

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