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| Foto: Edgar |
Os copos de açaí costumavam acompanhar as quentes noites daquele fim de verão. Estavam lá, em nossas mãos, pontualmente naquele ponto de táxi vazio perto da estação. Pequenos minutos tornavam-se preciosos em meio a conversas, reflexões e devaneios.
Lembra como costumávamos desejar que o relógio tivesse um décimo terceiro ponteiro, só para ficarmos uma hora a mais juntos? Era meia noite e cortava meu coração te ver partir na estação Belém, mas eu sabia que era necessário. Típica dor e saudade/vontade momentânea que vem na ausência temporária de algo que te faz bem. Quinze minutos ao teu lado já estabilizava todo um dia exaustivo de trabalho. Apenas quem passou por isso sabe dizer o quão significativo é ter alguém ali, mesmo que pouco tempo, realmente interessado em apenas estar presente e prestar atenção no que você tem pra dizer.
Lembra quando você levava seu tecladinho e eu ligava no meu computador? Passávamos horas naquele jardim gostoso da faculdade, tocando e ouvindo músicas. Você deitado no meu colo, nem o frio consumindo nossos corpos nos fazia sair de lá. A propósito, você sempre ficou lindo com aquele lenço que comprou quando passeávamos pela Paulista. Rapidamente, esses fragmentos foram se tornando intensos, marcantes. Sentimentos que nem pretendiam existir, mas floresceram.
Ao passar do tempo, lentamente as cores foram esmaecendo. Energia evaporava, mas a essência continuava ali. Quem sabe apenas foram tomados percursos distintos, ou rios que correm paralelos após se despedirem de algo que não existiu. Em meio a pensamentos, tentando procurar as noites frias e os copos de açaí, trago à vida memórias que ficaram congeladas no tempo como se nada houvesse ocorrido. E pra ser sincero, até hoje me pergunto se algo realmente existiu. Isso ainda não aconteceu, mas por favor: não vá embora. Não suporto a ideia de não te ter ao meu lado, por mais que esteja acostumado a recordar de coisas que só existiram em meu pensamento.
Sentado sozinho no metrô, escrevo esse texto no caminho de volta para casa. O trem para na estação Belém. Subitamente me recordo que, por mais que possa ser doloroso, tenho que ir pra casa. Me encontrar, mesmo sem saber o caminho. Vou ter que te deixar partir.
texto: Despedida Recorrente
Reviewed by Luccas Emanuel
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outubro 18, 2017
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